terça-feira, 8 de novembro de 2011

Abandono Infantil


I. Introdução

Neste artigo proponho-me a uma discussão sobre o “abandono infantil”. Porém, não vou tratar do abandono que nos acostumamos a ver no dia-a-dia de crianças em sinaleiras; jogadas em orfanatos e creches a espera de uma adoção. Neste estudo procuro tratar do abandono infantil dentro do próprio lar. O abandono infantil junto à própria família, a denominada “família estruturada” (pai, mãe e irmãos). Aonde a criança existe de fato e ninguém a enxerga como tal. Criança, relegada ao mais completo esquecimento, “invisíveis” aos olhos da “família natural”, conhecendo a maior de toda solidão, a de se estar só no meio de muitos, ou de um grupo, sendo o mais agravante, um grupo familiar.

Segundo Eni Samara a família “sempre foi pensada na História do Brasil como a instituição que moldou os padrões da colonização e ditou as normas de conduta e de relações sociais desde o período colonial”. O diagnóstico central diz que a família patriarcal consagrada em tais escritos impõe uma concepção única e genérica da família brasileira.

É na família que esperamos encontrar atenção, cuidados, amor, é na família que construímos a nossa identidade como pessoa, quanto individuo. A esta família denominarei “desestruturada”. Família onde o seu núcleo (pai e mãe) este tão voltado para o seu próprio “centro” que chega a não perceber a sua extensão, os filhos.

Começo esse artigo partindo da análise da minha própria experiência como família. Pode parecer um romance a princípio, mas estou utilizando minha história como um exemplo do que conceituei “família desestruturada”.

II. Minha Família: um conceito de família “desestruturada”

Começarei meu artigo usando uma frase que disse a minha filha, por volta dos seus onze anos, após tê-la repreendido severamente: - "Eu nunca desistirei de você! Sempre que for preciso irei brigar com você, e, ainda que não mais precise, eu vou lhe amar".

Estava separando-me do pai dela na ocasião, o que não significou que minha família seria, a partir daí, "desestruturada" e sim, teríamos um novo arranjo familiar o que se tornou muito comum na contemporaneidade. Minha filha estava bastante rebelde, agressiva, o tempo todo procurava chamar a minha atenção. Naquele dia havia tirado nota baixa na escola, eu cobrava dela boas notas, então, ela e duas colegas resolveram “fugir” de casa no horário da aula. Logo ficamos sabendo, o pai foi buscá-las em Bom Jesus dos Pobres, onde o tio tem casa de veraneio. Apesar do pedido do pai para eu não brigar com ela, não atendi. Aprendi que a palavra “não”, muitas vezes, pode significar a maior prova de amor. Foi então que minha filha ameaçou deixar-me e ir morar com o pai. Depois que lhe disse essa frase ela olhou-me em silêncio e ficou. Apesar de sua pouca idade, compreendeu a minha atitude, confessou que achava que eu estava certa por repreendê-la. Pediu-me desculpa e nunca mais repetiu o seu erro. Temos hoje muita discussão, às vezes sérias! Mas nada que nos faça desistirmos uma da outra. Na verdade eu não brigo com ela, e sim, por ela.

Quando começamos a refletir sobre os acontecimentos em nossas vidas, percebemos que uma coisa leva a outra. Logo, lembrei-me da minha gravidez. No primeiro trimestre foi detectado um tumor (benigno) na minha mandíbula esquerda, um “ameloblastoma”, era uma reincidência após quatro anos da retirada do primeiro tumor. Nesta época o médico que me acompanhava chamou meu marido e indicou o aborto, pois, o desenvolvimento do tumor estava muito acelerado devido à gestação e havia o risco de uma mutilação completa, das duas mandíbulas, caso atingisse o outro lado. Em casa, meu marido conversou comigo a respeito do assunto, poderíamos ter outros filhos em outra circunstância, eu, prontamente, disse-lhe “não”. Eu a queria tanto, e ela nasceu. Com vinte dias após o seu nascimento me submeti a cirurgia, não pude mais amamentá-la, tive infecção hospitalar e fiz uso de antibióticos por longo período. O leite secou, eu ainda tentei amamentá-la, talvez ela sugando, voltasse, mas não aconteceu.

A minha maior seqüela não foi ter a minha mandíbula amputada. Foi ter os meus sonhos “amputados”, um deles foi o de ser a “melhor mãe do mundo”. Como poderia sê-la se o meu emocional, a minha estrutura psíquica estava completamente destruída. Reconstruir a minha face foi muito demorado e difícil, levei dezesseis anos para conseguir fazê-la, mas, o meu “eu”, ainda hoje tento recuperá-lo. Mesmo com acompanhamento psicológico [fiquei três anos fazendo terapia] não consegui me sentir inteira novamente.

No período da minha gravidez cursava o oitavo semestre em Licenciatura em Química Aplicada, na UNEB (1989). Não consegui mais retornar ao curso, as pessoas me olhavam com estranhamento. Quando pensei em voltar, “encarar” o meu medo, uma colega de curso recebeu-me com a seguinte fala: “Nossa! você está horrível!”. Eu não tive mais “cara” para enfrentar a minha nova realidade. Eu tinha 23 anos de idade, além de cursar a universidade, fazia dança, natação e estava começando como modelo publicitário. Abandonei tudo. Mas, como me orientou a terapeuta, sonhos a gente reconstrói. Não podemos recuperar o que já está perdido, mas, podemos construir sonhos novos. É o que venho tentando fazer ao longo desses anos depois da fatalidade. Depois de cinco cirurgias para a reconstrução da mandíbula, prestei concurso para vestibular na UFBA, em 2007, onde hoje curso Ciências Sociais. Agora me proponho a entender o homem como um “ser social”. Não mais estou envolvida com pesquisa sobre as leis da natureza, mas, com o “ser natural” (o homem). Não mais com a ciência “pura” (positivismo), agora com as ciências humanas, “epistemologicamente” falando.

O problema social começa na instituição familiar. É na família que se formam os cidadãos que serão (ou não) acolhidos pela sociedade e, são as instituições de ensino a principal “firmadora” desse conceito de cidadania. Os abrigos e reformatórios para adolescentes conflituosos com a sociedade e com a Lei, no meu entendimento, são instituições que só contribuem para a “negação” do sujeito na sociedade e o ideal seria evitá-las, com medidas preventivas, dando um maior suporte para as instituições familiar, escolar e comunidades.

A minha filha viveu o abandono a que me refiro nesse artigo. Ela sofreu com a minha rejeição e com minha falta de equilibro emocional [o que chamo de estrutura]. Eu a culpava pelo meu sofrimento, pelas perdas dos meus sonhos. Eu que havia decidido por ela, num momento crucial de minha vida; que a acolhi no meu ventre com tanta ternura, a condenava ao mais cruel abandono. Ela que nada entendia, dificilmente sorria. (um dia a minha sogra comentou comigo: “ela era um bebê que não sorria”). Minha filha foi crescendo “fechada”, não gostava que lhe fizessem carinho. Tornou-se “precoce”, diagnosticou a minha terapeuta, o seu comportamento.

Ela foi um bebê lindo, tipo capa de revista “Pais e Filhos”. Não havia quem não parasse para vê-la quando saíamos. Mas, sempre vinha a “flamejarada” pergunta. Pergunta infame de quem não tem a mínima compaixão com o sofrimento do outro. “É sua”? Depois o cruel comentário: “Ela é tão linda, deve ter “puxado” ao pai”. Comentário esse que me remetia a mais dura realidade: Nossa! você está horrível!  Desfigurada, não parece ser a “mãe” dela! Que figura é esta de “mãe”? “Mãe” tem que ser perfeita? Que perfeição é está? Que cobrança era aquela o tempo inteiro de uma sociedade pela “figura” de “mãe”? Então, aquele bebê tão lindo, tão bem cuidado, saudável, não poderia ter nascido de uma mãe “desfigurada”? Era tão somente o meu rosto, até aquele momento, que estava desfigurado, não a “essência” de mãe. A deformidade era física. O ser “mãe” permanecia inalterado dentro de mim como no primeiro instante da gestação.

Estes comentários foram aos poucos destruindo esta “figura” materna, desmontando este sentimento doce e profundo que dá sentido a própria palavra “mãe”. Sentia-me estigmatizada o tempo inteiro e acabei por internalizar esta figura “distorcida” de mãe. O meu sentimento em relação a minha filha começou a mudar, o meu comportamento também mudou. Já não apresentava a mesma felicidade dos primeiros momentos de gravidez, já não era mais “positivo” aquele “teste de gravidez”. Não me sentia mais mãe, não queria ser mãe, não “aquela” mãe, não fora a que sonhei ser.

Eu não só me entreguei ao abandono, bem como, abandonei a minha “cria”. Agora, não havia mais sonhos nem realizações. Havia apenas a esposa e a mãe. Não abandonei minha filha em um orfanato, ou em uma creche, nem a entreguei para adoção. Abandonei estando presente “fisicamente”, o corpo estava lá, mas, a alma não. Nem o pensamento estava com ela. Entreguei a ela à minha privação de sentidos. Ela era quase “invisível” aos meus olhos.

O meu desalento foi grande por eu não consegui ser a mãe dos meus sonhos, a mãe que a mim,  um dia, também foi negada. Distante de mim, a minha mãe, quase que não me enxergava, não me ouvia ainda estando do meu lado. Contou-me que me deixava chorar no berço até que eu dormisse, não ia nem me olhar, dizia que meu choro parecia mais um gemido. Conta-me que um dia uma vizinha observando sua atitude perguntou-lhe porque me deixava chorando. Ela respondeu que tinha outros filhos ainda pequenos “precisando” de atenção, que meu choro não a incomodava. Ora, então eu não precisava de atenção? Eu era só um bebê. Aprendi a me virar sozinha desde o berço. Desde o berço aprendi a não “incomodar”.

Cresci assistindo inúmeras brigas entre meus pais e vários atentado contra a vida (tentativa de suicídio) por parte de minha mãe. É esse tipo de família que, também, chamo “desestruturada”. Meus pais pareciam não se importarem conosco. Disputavam os nossos carinhos, nossos afetos. A pergunta mais frequente, principalmente, depois das brigas: "você gosta mais do papai ou da mamãe?" Que pergunta mais difícil para uma criança responder. Crescemos neste clima de “jogo”. Esta situação era tão presente, tão constante e ao mesmo tempo tão confusa em nossas vidas, que nos fazia sentir culpados por gostar dos dois e não poder desapontá-los. Isto nos valeria maior ou menor afeto por parte deles. No meu caso, como havia essa indiferença por parte de minha mãe, eu sofri total falta de afeto materno. Era no meu pai que encontrava suporte.

Como sempre me relacionei melhor com o meu pai, não percebia que me tornará uma peça fundamental num “jogo” de conflitos de interesses. Por minha mãe acreditar que eu gostava mais do meu pai, tratava-me com rispidez, quase desprezo. E, a todo custo, sempre jogava meus irmãos contra mim, fez isso comigo a vida inteira. Era um comportamento esquizofrênico. Com a adolescência, o ciúme só aumentou e os problemas aumentaram paralelamente. Lembro-me do seu olhar, de cada frase dita com certo “ódio”, “repulsa”. Contava ainda com meus doze anos, quando, depois do meu pai me fazer carinho, ela dizer; “Eu ainda tiro esse “cheiro de queijo” de seu pai com você” (“cheiro de queijo” é uma expressão de Pernambuco, que significa "grude", meus pais são pernambucanos).

Neste dia fui para a escola determinada a afastar-me de meu pai para que assim, talvez, ela pudesse me “amar”. De nada adiantou. O meu pai não pensava dessa maneira e, sabendo que a provocava com o seu carinho por mim, me tornei uma “peça chave” dentro desse conflito particular. 

Penso que quando os filhos são “problemáticos”, dispersos de si mesmos, os pais devem ser investigados. Pais que amam e ao mesmo tempo parecem odiar sua prole. Pais que responsabilizam os filhos por suas insatisfações pessoais, como se os filhos não tivessem sido uma opção sua. Filhos que são literalmente “usados” entre as disputas do casal e que são levados a competir entre irmãos à preferência de um dos pares. Irmãos que assim vão tornando-se rivais ferrenhos, e passam a montar, construir estratégias uns contra os outros, como se inimigos fossem dentro de um mesmo lar. Aquele lar que deveria ser um “santuário”, onde as diferenças deveriam ser apaziguadas, respeitadas, tornam-se armas de destruição entre seus membros.

O comportamento paterno, muitas vezes, são os que mais influenciam nessa desconstrução. O pai parece muitas vezes olhar para seu filho como “rival”. Aquele que chegou para se apropriar de uma atenção que antes era somente sua. A esposa agora é mãe. Os seios não lhe servem mais para satisfação sexual, agora é fonte de alimentação, aquele corpo, a partir do momento do nascimento do bebê, deixa de lhe satisfazer para acolher aquele ser tão frágil, tão dependente, que agora faz parte integrante da família. A mulher já não é mais só mulher, e, isso muda tudo na vida do homem, na vida conjugal. As horas que antes lhe era dedicada é dividida, e de modo desproporcional, entre o pai e o filho. O filho parece ganhar sempre nessa disputa de espaço entre mulher e mãe. Se levarmos em conta de que alguns homens vêem na esposa a própria mãe, que muitas vezes o “trocou” por algum irmão, então, essa disputa torna-se ainda mais gritante. O pai, que também é filho, acaba por rejeitar aquela criança, seu filho, como também rejeitou a chegada do seu irmão. Ambos vieram tirar-lhe o sentimento de pertencimento.

O pai, na maioria dos casos, o provedor da família, dispõe de menos contato com o filho. Muitos pais precisam passar dias longe do lar e da família, por motivo de trabalho. A criança desenvolve-se sem perceber a figura paterna como membro importante daquela construção. A mãe passa a ser, a figura mais representativa na vida dos filhos. A mãe é quem protege, alimenta e acalenta. A mãe é quem aquece na hora do frio, que serve de bálsamo na hora da dor. O pai passa a ser um figurante, a mãe a protagonista da história de vida desse ser. Muitos filhos chegam a desconhecer seu pai, é um homem que de uma hora para outra, no intervalo do trabalho, aparece. Esse “desconhecido” chega e começa a impor sua presença àquela criança. “Eu cheguei agora à atenção é para mim”. Ao invés de acolher acaba por afastar e acirrar ainda mais a disputa materna. A figura do pai nesse momento torna-se monstruosa aos olhos do filho, que passa a desejar ainda mais o afeto materno. Pai e filho travam entre si, então, uma disputa árdua pela mesma mulher. Devo ressaltar que quando me refiro ao filho, não estou me referindo ao gênero.

Relatarei um caso que ilustra bem, o que até aqui contextualizei. Não usarei de nomes, porém, o relato é verdadeiro. Em uma família, de sete filhos, o pai precisava sempre ausentar-se por conta do seu trabalho. Ausência de quinze dias ou mais. A mãe ficava com a responsabilidade total sobre esses sete filhos. Ainda jovem, longe de toda sua família, pois ao casar-se partiu com o esposo de sua terra natal, para viver em cidade distante. Típico imigrantes nordestinos. O que, no momento, não é o assunto em discussão.

Quando os filhos adoeciam, a mãe é quem cuidava para que ficassem bons. A mãe acompanhava-os na educação escolar. A mãe, na falta do dinheiro para comprar alimentos, é quem inventava alimentos alternativos. A mãe é quem brincava com esses filhos. A mãe cozia para esses filhos hora a fio em sua máquina de costura. Até o retorno do pai, a mãe era a figura marcante na vida dessas crianças. O pai quando retornava, queria impor a todo custo a sua presença. O filho menor, com pouco mais de um ano de idade, não o reconhecia. Sempre que o pai adentrava a casa, o pequeno corria para trás da saia da mãe para esconder-se, assim como fazia com qualquer outro estranho: o verdureiro, o homem do gás, etc. Os demais filhos ficavam um pouco mais arredios, pois, sentiam que a presença daquele homem, o pai, rompia com algo na relação dentro daquela família. Algo mudava cada vez que ele se fazia presente. A mãe não era mais quem mandava. A autonomia, de uma hora para outra, passava da figura materna para a figura paterna. E, logo, digamos, uma semana depois, voltava ser da mãe. A mãe, sabendo dessa falta de identificação dos filhos com o pai, logo, começa a usá-lo como uma forma de “castigo”, ou seja, não precisava mais pegar chinelo para corrigi-los de suas travessuras, era só colocar a presença do pai, e pronto!  -“Seu pai vem aí!”! Ou, “Quando seu pai chegar vou dizer para ele!”.

Uma outra etapa do mesmo caso em questão, o pai, agora se sentindo como se não fizesse parte daquela família, e tentando resgatar a imagem de “bom”, quando o filho lhe pede algo que ele não quer que o filho faça, joga a responsabilidade para a figura materna: - “fale com sua mãe!”. Forma-se um ciclo de responsabilidades remessadas nas mãos do outro, o que parece “ruim” fica para a parte decidir, e, se mantém, através desse manejo, as figuras: do bom e do mau. O mais querido, o menos querido. Disputa-se assim, o amor dos filhos, em paralelo vai se construindo alianças.

Existem diálogos em que o pai refere-se próprio filho como se este não fosse seu. Aquele ser só é seu filho na hora de repreender – “eu sou o pai”, tenho “autoridade”. Em outros momentos o filho é seu – “não é você quem é a mãe?”, ora se é pai, ora deixa-se de sê-lo. Essa autoridade muitas vezes é imposta ao pai através da mãe. Muitas mães costumam, na hora de repreender seus filhos, colocar a figura do pai “monstro”, para manter sua imagem de doçura e benevolência, de piedosa e compreensiva. Não deixa de ser um comportamento de competitividade. Uma forma estratégica de conseguir o mais alto grau de afeto daquele filho e gratidão. Através desta gratidão vai se montando uma nova estratégia, a de submissão e devoção fervorosa, à qual a mãe manipula e mantém o filho como uma “arma” contra qualquer atitude considerada negativa, advinda do cônjuge. Ou seja, reforça o instinto da rivalidade já existente entre pai e filho.

Quando o número da prole vai aumentando, aumenta com ela, a disputa e a desunião entre os membros da família. Agora os pais irão demonstrar a sua predileção por um dos filhos, aquele com o qual a afinidade tende a ser maior. Por mais que se queira afirmar que não existe essa predileção, essa não é verdadeira, ainda que de forma inconsciente, os pais tendem a ter o filho preferido. Aquele filho que se sentir preterido irá aliar-se ao cônjuge do qual poderá levar vantagem em relação aquele “queridinho”. Nesse processo, vai se formando dentro de uma mesma família, a divisão de grupo. Cada membro irá se unir a um lado, na tentativa de se sentir mais amado, ou quando nada, menos excluído, já que essa preferência significa um maior favorecimento dentro da família. Entra nesse ciclo, então: disputa entre cônjuge, disputa entre irmãos. Ninguém se separa, porém, ninguém se une. Formam-se, por assim dizer, alianças entre grupos diferentes numa mesma família. Filho aliando-se a um dos pais, os pais aos filhos preferidos, e os irmãos aliando-se entre si contra todos os que parecerem uma ameaça a sua estabilidade dentro da família. Todos trazem em si um sentimento de não pertencimento. A família perde, assim, a sua identidade estrutural.

III. “Abandono Infantil” – Quando considerá-lo?

Então, me vem à questão: Quando considerar “abandono infantil”? Quando os pais esquecem que têm próximo de si um “ser” indefeso, incapaz de deduzir sobre qual o papel que desempenha naquela família, e se utilizam (os próprios pais) dessa incapacidade da criança de associar as peças desse “quebra-cabeça” (jogo), em favor dos seus interesses “doentios”. Levar essa criança a um “desmonte” da sua estrutura como pessoa, fazendo dela “marionete” em seus jogos esquizofrênicos, contribuindo, assim, para que essa criança perca a sua identidade social, não seria considerado, também, “abandono infantil”?

Mais do que perguntar quando se considerar como “abandono infantil”, seria perguntar o que é sentir-se “abandonado”? Como é sentir-se abandonado ainda quando se tem a presença dos pais (família), vivendo num mesmo espaço (casa), uma família “dita” “estruturada” (pai, mãe e filhos)? Até aonde esse “considerar-se” abandonado pode repercutir no desenvolvimento social deste indivíduo? Como isso pode refletir no comportamento dessa criança para com os outros atores social? Talvez, se pensarmos a sociedade como uma extensão da família, possamos chegar a esse entendimento.

Segundo alguns autores o termo “casa” apresenta duplo significado (1) refere à idéia concreta de espaço físico e geográfico no qual habitam diferentes pessoas. (2) designa a idéia de grupo doméstico ou familiar, a vida dos seus membros e as interações que os compõem (Gilberto Freire (1933); DaMatta (1985) e Lévi-Strauss (1991/92), neste artigo utilizei como sinônimo de “espaço físico” considerando que: “a casa, como construção física, não pode ser separada dos corpos que a habitam e transitam, nem das relações pessoais que a modelam” (Marcelin, 1996). Enquanto construção física e como instituição social total a casa se constitui em um dos melhores registros dos momentos de articulação e de mobilização de alianças intra e inter-geracionais entre seus membros e indica os ciclos de transformação que a acompanharam.

Aquele que aprende a “se virar sozinho” desde o berço, acaba por não precisar de mais ninguém ou, pelo menos, passa a acreditar – “eu me basto”. Essa auto-suficiência pode, por um lado, representar uma independência benévola ao individuo. Ele aprende a tomar as próprias decisões (precocemente), a suportar sua própria dor, aprende a formar sua própria opinião sobre diversos acontecimentos. Essa auto-suficiência seria um bem se não fizesse desse ator social um sujeito ainda mais solitário, um ser capaz de ignorar sua própria dor.

Na verdade essa auto-suficiência não existe, ela é só uma “máscara” para que o indivíduo possa encobrir as suas fraquezas. Este indivíduo deixa, muitas vezes, de receber atenção de outras pessoas por querer passar essa imagem de “fortaleza”, ou seja, o individuo evita uma aproximação maior com o outro – a interação. E esse distanciamento não pode ser considerado saudável para este ator viver em uma sociedade, que por sua própria estrutura social, política e econômica, já se caracterizam como uma sociedade individualista.

O sujeito social para adquirir noção de valores sejam eles: morais, religiosos, culturais, éticos, etc., precisa interagir com outros agentes sociais. Este, para mim, seria o ponto negativo dessa “auto-suficiência”. Se o sujeito não desenvolveu noção de valores durante a infância e adolescência, provavelmente, não irá “respeitar” o que é “valor” para o outro, mesmo porque este sujeito social se torna tão individualizado que nem enxerga o “outro” como seu semelhante. E essa afirmação de si como ser original não se restringe a um momento; ao contrário, percorre todas as idades.

Considerando que a existência do confronto entre o eu e o mim forma a personalidade, no sentido de respostas refletidas ao entorno social. Mead, afirma que a não existência das duas instâncias determinaria respostas diretas, como dos cavalos ou cachorros e, portanto, a ausência de “personalidade” no sentido que propõe. O eu reage às atitudes organizadas dos outros (ao mim).

O ‘eu’ é a reação do indivíduo à atitude da comunidade, tal como tal atitude aparece em sua consciência” (1973, p. 221) “... O organismo individual adota as atitudes organizadas dos outros provocadas por sua atitude, e ao reagir a essa reação provoca outras atitudes organizadas nos outros da comunidade a qual pertence o indivíduo. (MEAD, 1973, p. 213).

Este ator social, por se “fechar em si” e tornar-se “diferente” dos outros, acaba sendo estigmatizado, ao longo de sua vida, recebendo vários rótulos, como: “egoísta”, “gênio ruim” (natureza difícil), “maluco”, entre outros. O pior acaba por “adotar” essas características. Em outras palavras, acaba internalizando essas categorias ou algumas delas. Começa a passar para o “outro” esta imagem negativa de si mesmo, até mesmo como mecanismo de defesa. Tem medo do “coração partido”. Como bem observa François de Singly (2001), o mito da interioridade, a busca do "verdadeiro eu", tem como condição imprescindível o "olhar do outro".

Em sua obra Estigma, Goffman nos fala sobre a manipulação da Identidade deteriorada, é uma interessante viagem pela situação de indivíduos incapazes de se confinarem aos padrões normalizados da sociedade, são indivíduos com deformações físicas, psíquicas ou de caráter, ou com qualquer outra característica que os torne aos olhos dos outros diferentes e até inferiores e que lutam diária e constantemente para fortalecer e até construir uma identidade social.

Goffman analisa nesta obra, os sentimentos da pessoa estigmatizada sobre si própria e a sua relação com os outros ditos "normais". Explora a variedade de estratégias que os estigmatizados empregam para lidar com a rejeição alheia e a complexidade de tipos de informação sobre si próprios que projeta nos outros.

O que pretendo mostrar nestes argumentos, é que o “abandono infantil” também se dá quando não se consegue se sentir amado. Quando não se consegue aceitar o “outro”, não é preciso , necessariamente, “livrar-se” do desafeto, abandonando-o em creches, orfanatos ou abrigos. Abandona-se quando esse “ser” deixa de ser visto como um ser importante para o “outro”, neste caso específico, para os pais (família) e passa a ser considerado uma reles peça no “jogo da vida”. Esse abandono não é menos sofrido, não maltrata menos e pode deixar seqüelas irreversíveis para o sujeito em si mesmo e para toda a sociedade, caso este individuo não receba um “suporte” ao longo de sua vida.

Esse artigo foi desenvolvido por mim, na Universidade Federal da Bahia, em 2010, para tratar de um problema que afeta, nos dias atuais, grande parte da sociedade, o abandono infantil: sua decorrência e consequência, do ponto de vista sociológico. Porém, é preciso associar essa questão também a uma visão espiríta. Hoje sou capaz de compreender melhor os desenlaces familiares, os rompimentos e desunião dentro do lar, como uma causa espírita. Compreendo melhor as causas dos meus sofrimentos e dos que participaram direta ou indiretamente para a minha superação. Fico feliz quando, antes mesmo de conhecer a doutrina espírita, pude ouvir do meu mestre acadêmico: "parabéns por saber transformar o doído (dor) em beneficio (saber)".  


A CONCLUSÃO deste artigo será construída ao longo desse meu diário, em cada um dos meus relatos, os quais compartilharei, aos poucos com vocês.

A intenção desta postagem é apresentar-me um pouco mais a todos. 

Luz e Paz!

2 comentários:

  1. Adorei seu artigo! Em muitas partes eu me identifiquei. Sempre fui uma pessoa fechada, não consigo permitir que os outros por medo de traírem minha confianca, assim como ocorreu na minha família com uma pessoa em que eu me espelhava. Após esse ocorrido, abri os olhos e percebi que essa pessoa ainda colocava minha mãe contra mim, que acatava todas as suas queixas. Muitas vezes minha mãe me repreendeu (e muitas vezes com coisas simples), falando que eu não conseguiria fazer ou que ela 'não queria bagunça' (lê-se experiencia mal sucedida rs) na casa, fazendo com que eu acreditasse que não fosse capaz de realizar as mais simples coisas. Hoje estou tentando me melhorar a cada dia que passa, sempre lendo algo para tentar compreender toda essa situação e as que não citei aqui além de identificar como essa situação me moldou até aqui. A maior parte deste artigo se encaixou na minha família como um todo (incluindo avós, tios, primos, etc) e o achei muito interessante porque me ajuda na construção da minha busca. É algo que realmente quero aprender como funciona para não fazer isso com os meus filhos.

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    1. Quando escrevi este artigo, estava em busca de mim, da minha autoconfiança. Eu procurava me mostrar forte, dona-de-mim, enquanto era uma fragilidade só, sentia medo de me desmontar caso me permitisse a aproximação com outro. Era mais seguro que todos me vissem assim! Só que a gente começa a entrar num ciclo de negação e isolamento tão profundo que quando olhamos para nós mesmos, já não mais estamos ali e nem sabemos onde foi que nos perdemos de si. Então, começa essa busca, a que você hoje se coloca, para se reconhecer e não repetir o processo com seus filhos. Eu hoje consigo me permitir aproximação, e minha filha se revelou um ser surpreendente. Espero, sinceramente, tê-la ajudado de alguma forma. Luz e Amor!

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"(...) Quem se faz instrutor deve valorizar o ensino aplicando-o em si próprio" (Joanna de Ângelis.