sábado, 4 de maio de 2013

Isolar-se é não permitir a vida


Em 14-03-2013, às 01hs 20 min.

"A senhora não tem nada que possa pagar o meu indulto?". Acordei. Escuto sons quem vem de dentro de mim. Romper de tambores e batida de pés tum ... tum ... tum .... Não há nenhum outro som no espaço vazio da minha mente. Levanto-me, o som desaparece. Em vigília, reaparece. Então, volto ao sonho, o lugar em que me encontro agora é isolado, no meio do mato. Não há iluminação, é um ambiente sombrio. Limpo o canto da parede do quarto, entre o armário. Passo a vassoura em uma teia de aranhas, que pulam sobre mim. Eu grito desesperadamente que as tirem. Vejo-me envolvida por suas teias. Eram aranhas marrons, pude vê-las nitidamente. Acordei apavorada, então, disseram-me: "trata-se de Espíritos misantropos". Fiquei confusa no momento: "espíritos que tomam para si formas de bichos?". Não, seria zoantropia. Recorri ao Livro dos Médiuns (Allan Kardec, cap. IX, questão 132), os Espíritos misantropos são os que vivem isolados, preferindo a solidão.

Eu, sem perceber, estava frequentemente isolando-me. Irritava-me a multidão, causava-me um certo "pânico", uma "fobia". Lembro-me, já na adolescência, em meio aos tormentos da obsessão, por não saber controlar a fúria que me tomava repentinamente, trancava-me no vão da dispensa da casa, onde eu mesma me torturava, não só psicologicamente, bem como, fisicamente, batendo com a cabeça na parede, ou, com o martelo sobre o meu corpo, mordia-me os braços e arrancava os cabelos, possuída por uma força maior do que o meu corpo podia suportar. Chorava sozinha, horas e horas, sem nada compreender, sem ter um abraço para me consolar, até tudo passar.

Isolava-me por ouvir minha mãe dizer, por ignorância, todas às vezes que eu entrava em "crise": "você não ama ninguém". Eu os amava tanto que preferia a solidão e a tortura para não afetá-los com o ódio que me sobressaltava sem a menor explicação. Eu contava somente quatorze anos de idade e nada sabia sobre o Espiritismo, mas, já conhecia a influência dos Espíritos. Um dia, meus pais brigavam em casa, avancei contra meu pai, com uma  faca de cozinha em punho, com a fúria e força de cem homens, depois, "apaguei". Por isso minha mãe passou a repetir: "você não ama ninguém".  Tentei pela primeira vez o suicídio, e, depois, busquei o isolamento, para não fazer mal a ninguém.

Quem se isola perde a oportunidade preciosa de ajudar e de ajudar-se. "Deus fez o homem para viver em sociedade (...) e que deve concorrer para o progresso, ajudando-se mutuamente" (L.E., questão 766). Isolar-se do mundo não irá acrescentar nada em sua transformação moral. A solidão é apenas uma condição momentânea para uma reflexão, pois que, o silêncio ajuda a acalmar os pensamentos. Porém, o homem somente se transforma através do contato com o mundo, com o "outro". "O homem deve progredir. Sozinho, ele não pode porque não tem todas as faculdade; é-lhe preciso o contato dos outros homens. No isolamento ele se embrutece e se debilita" (L.E., questão 768). O outro é o espelho que reflete a nossa própria imagem e, por isso, muitas vezes, desejamos isolar-nos como se pudéssemos eliminar o nosso próprio eu.

Somente em sociedade o homem se transforma. Isolado apenas afasta-se da oportunidade ofertada pela misericórdia Celestial. "O voto de silêncio absoluto, da mesma forma que o voto de isolamento, priva o homem das relações sociais que podem lhe fornecer as ocasiões de fazer o bem e de cumprir a lei do progresso".  Impulsionado muito mais pelo egoísmo e não pela caridade, o homem diz: "assim eu não ouço e nem digo", e não se percebe estar dizendo: "eu não me comprometo". Assim, "evitando um mal ele cai em outro, visto que esquece a lei de amor e de caridade". Contudo, estamos na Terra por estarmos comprometidos com Deus e com o próximo. Como nos mostra Kardec, o mal é a ausência do bem. Aquele que se isola para não fazer o mal, também não faz o bem e Deus não o isenta das provas que deve suportar (Livro dos Espíritos). Kardec pergunta, questão 770: Que pensar dos homens que vivem na reclusão absoluta para fugir ao contato no mundo? Os Espíritos respondem: "Duplo egoísmo".

O isolamento faz parecer que estamos livres das vicissitudes da vida e, isso, leva-nos acreditar sermos pessoas melhores, muitas vezes, trás a sensação de superioridade sobre o outro. Pura ilusão! No momento em que a menor vontade nos é contrariada, deixamos revelar o que temos ainda de primitivo em nós - o instinto. O instinto, segundo os Espíritos "é uma inteligência não racional (...) a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio" (L. E., questão 73-75). A razão se eleva quando nos colocamos no lugar do outro, como ensina Jesus: "amar ao próximo como a si mesmo".

O instinto, conforme esclarece Kardec, "nos seres que têm a consciência e a percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, quer dizer, à vontade e à liberdade. Manter-se isolado é permanecer preso dentro de si mesmo, sem se permitir conhecer-se, é não permitir a vida. É estacionar no tempo, onde o progresso pede participação e conhecimento de si mesmo. Sem a interação com o outro, desconhece-se as próprias motivações. Assim sendo, o isolamento constitui-se na privação do "eu".

Quando ocorre a transformação íntima? Quando, em contato com o outro, diante de qualquer situação,  já não me permito contaminar pelo meio. Mantenho-me elevado, sob qualquer situação que a vida se apresente. Já não mais "estou", e sim, "sou". O Espiritismo não elimina os problemas existentes, mas, ensina-nos, a partir da sua Doutrina, a lidar com eles, da maneira que o Cristo nos ensinou. Então, eu realmente sou ...

  • Indulgente: diante da maledicência, calo-me. Já não contribuo em disseminar a discórdia, nem fecho as portas para o perdão;
  • Humilde: "reconheço na gratidão o único tesouro dos humildes";
  • Benevolente: estou naturalmente disposto a fazer o bem,  lembrando-me que "a verdadeira caridade é sempre bondosa e benévola";
  • Paciente: aprendi que a paciência nasce da boa vontade e da compreensão;
  • Perseverante: já não me desespero, pois, creio que tudo está ao nosso alcance;
  • Compaixão: já não mais possuo a frieza da indiferença. Busco diminuir o sofrimento, procurando contribuir para que as suas causas sejam afastadas;
  • Caridade: percebo que "é amor, em manifestação incessante e crescente. É o sol de mil faces, brilhando para todos, e o gênio de mil mãos, amparando, indistintamente, na obra do bem, onde quer que se encontre, entre justos e injustos, bons e maus, felizes e infelizes, por que, onde estiver o Espírito do Senhor aí se derrama a claridade constante dela, a benefício do mundo inteiro" (Emmanuel);
  • Amor: compreendo que "amar é ultrapassarmos-nos" (Oscar Wilde)
  • Fé: quando padeço sem forças diante das adversidades do mundo, recorro, em silêncio e oração, a ajuda do Pai que está no Céu, na Terra, no Mar, no Oceano, está em tudo que criara. Reconheço-me como parte de  tudo o que há no Universo, e, de tudo o que há, sou a parte mais importante, pois que, sou feito à Sua imagem e semelhança. Eu sou amor.
Quando, enfim, reconheço-me em Deus, reconheço-me no amor, a transformação se completou. Isolar-se, portanto, é negar a evolução do Espírito. É fugir às responsabilidades. É comprometer-se ainda mais. Ainda que no final da caminhada, nada mais restasse do que o aqui se viveu, ainda assim, teria valido à pena trabalhar em busca da perfeição, junto a Jesus. No entanto, como duvidar que a vida continua após a morte? Jesus consola-nos: "Meu Reino não é desse mundo, tende bom ânimo, Eu venci o mundo". A vida torna-se mais leve quando se trabalha para o bem. "Seja qual seja o seu problema, o trabalho será sempre a sua base de solução" (Emmanuel). A vida é trabalho conjunto e constante. Permita-se! Que Assim Seja!

Luz e Amor!


"Até quando os vossos olhos só alcançarão os horizontes marcados pela morte? Quando, enfim, vossa alma quererá lançar-se além dos limites do túmulo? Mas ainda que tivésseis de sofrer uma vida inteira, que seria isso ao lado da eternidade de Glória reservada àquele que houver suportado a prova com fé, amor e resignação? Procurai, pois, a consolação para os vossos males no futuro que Deus vos prepara, e vós, os que mais sofreis, julgar-vos-eis os bem-aventurados da Terra". 
(Bem-Aventurados os Aflitos, cap. V; 19. O Evangelho Segundo o Espiritismo)

3 comentários:

  1. Salve, salve! Muito interessante seu texto, sua narrativa. Eu também fui muito mais misantropa, principalmente após sofrer bullying na escola, ainda na adolescência. Décadas depois, ainda sofro os reflexos e tento, através da bênção do Espiritismo, me depurar e perceber meu lugar neste mundo e na obra de Deus. Tenho me tornado mais social e humana. como dizem: "Uma folha não cai sem que haja uma razão." Paz no seu caminho. Rafaela

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  2. Eu sou uma pessoa isolada mesmo de tudo e por acaso tenho obrigação de permitir a vida? Nada disso eu vivo numa casa no meio de florestas e faço minhas coisas todos os dias e tudo isso longe das cidades e nunca me casei, namorei e tive filhos e sou feliz assim por que não tenho ninguém ao meu lado para me dar lições de vida como a porcaria do espiritismo faz e acha que todo mundo deve viver igual com a vida. Nada disso e sou ateu mesmo e quero que todos vocês saibam disso só por que existe um deus?

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    1. Ninguém é "obrigado" a nada nesta vida, o livre-arbítrio é uma lei divina, logo imutável. Tudo é uma questão de escolha, até duvidar da existência de Deus. Ninguém é obrigado a plantar, mas a colheita é obrigatória. Se não me permito nada na vida, o que vou colher da vida? O Espiritismo não prega que devemos ser todos iguais, ao contrário, é uma Doutrina que ensina que o Espírito é único e indivisível e, por isso, devemos respeitar as diferenças. Respeitar as diferenças é que nos possibilita a convivência uns com os outros. Não é "dar lições de vida", mas compartilhando conhecimentos que nos ajudam a evoluir, independente das nossas crenças e religião. O Espírita não pode ser ateu (precisa acreditar em Deus), mas o ateu, ainda negando a existência de um Deus, pode acreditar no Espírito. Luz e amor!

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"(...) Quem se faz instrutor deve valorizar o ensino aplicando-o em si próprio" (Joanna de Ângelis.